domingo, 26 de agosto de 2012

CAIO CORSALETTE

No Brasil, o termo "sertanejo" é carregado de muitos significados, e todos distantes do rock e de seus outros tantos significados. Se usarmos a palavra "country", podemos talvez nos lembrarmos apenas da "música sertaneja norte-americana", e da indústria que se apoderou disso, tornando tudo pop ou superficial. O rock passa longe.

Esquecemos que a música country foi influência importante para o rock, presente na obra de diversos grandes nomes como Bob Dylan, Neil Young e Elvis. O rockabilly, dos seus primeiros e mais famosos subgêneros, carrega no nome justamente a junção entre rock e hillbilly, palavra que identifica os moradores das zonas rurais. Rockabilly: rock caipira.

Caio Corsalette tenta resgatar o rock da música country. Vai às raízes dessa bagunça toda. Traz consigo as marcas de Santo Anastácio, Nova York e São Paulo, cidades que o formaram. E mergulha na noite paulistana mais alternativa para uma conversa. Invadiu com suas esporas o baixo Augusta e agora está aqui, n'O Caralho do Rock.

CDOROCK - Como o rock influencia o seu som?

CAIO - Não só na sonoridade, mas foi no rock que quase todas as idéias libertárias de comportamento encontraram seu lugar a partir dos anos 60. A verdade é que depois disso, até hoje, “quase” tudo que não seja rock é careta e chato. Sem o rock, não só meu som, mas também meu texto não existiria. Tá certo que fora da música tinha o Allen Ginsberg para deixar qualquer surdo-mudo de cabeça para baixo, mas aí é outra história.

CDOROCK - Antes de aderir ao country com a banda Dollar Furado, você era baterista. Pode contar um pouco sobre suas experiências anteriores na música?

CAIO - Na cidade onde nasci só rolava música sertaneja e eu tinha uma banda de rock. Dos onze aos treze anos tocava bateria nesse power trio e nos apresentávamos por toda região. Lembro de uma vez em que tocamos em um encontro de motociclistas. Tinha um palco montado na beira da pista e os caras faziam acrobacias com as motos na nossa frente enquanto tocávamos. Um dos motoqueiros levou um tombo e morreu ali. Lembro que tocávamos uma música dos Ramones. Paramos o show imediatamente e partimos para outra cidade onde faríamos um show numa formatura de faculdade. Eu era bem novo e tocava em todos os tipos de lugares que você possa imaginar. Em São Paulo também participei de alguns projetos, mas parei com a bateria assim que comecei escrever e cantar minhas músicas.

CDOROCK - Ouve muito rock and roll? Que artistas mais ouve?

CAIO - Gosto de escolher um álbum e deixar a semana no meu toca-discos. Cada dia, em diferentes situações, dou uma ouvida. Não sobra tempo e por isso não me arrisco muito com coisas novas de segunda qualidade se ainda não ouvi todos os Dylan’s, por exemplo. Agora estou fazendo uma trilha sonora para um curta que se chama “Highway”. Comecei a achar a sonoridade da trilha muito pesada, então achei em “Far Away Eyes”, do disco “Some Girls”, dos Stones, uma boa referência pra dar uma respirada. 

CDOROCK - Que semelhanças você percebe entre o country e o rock?

CAIO - Percebo várias, mas isso não é tão simples. Dizem que o rock veio do country e do blues. É certo que o rock tomou muitos caminhos como por exemplo o heavy metal, o rock progressivo, e tantos outros que fizeram dele um estilo inconfundível. Mas se pegar o início da “marca” rock and roll, lá quando Bill Haley estourou o “primeiro rock” nas paradas de sucesso americana no começo dos anos cinquenta, a diferença para o country era essencialmente o comportamento. Tanto que Elvis não existiria apenas com o blues e o country, foi preciso que James Dean abrisse caminho com suas roupas, cabelo, gestos e comportamento subversivo.


CDOROCK - E, anglicismos à parte, que diferenças percebe entre o country e o nosso “neo-sertanejo”?

CAIO - “Neo sertanejo” a que você se refere é esse sertanejo que chamam de universitário? Isso é uma bobagem.

CDOROCK - Uma das características que ressaltam sobre sua música é a respeito de sua voz grave e a falta de vibrato, o que lhe daria um “ar mais viril”. Você acha que tem mais culhões que os cantores sertanejos habituais?

CAIO - Quem realmente tem culhão não comenta.  Vou ficar quieto [risos]. Diria que canto do meu jeito.

CDOROCK - Você participou de um episódio do Som Brasil, da Rede Globo, dedicado a Zezé Di Camargo & Luciano. Como surgiu esse convite e como foi trabalhar com canções da dupla?

CAIO - Ser chamado para interpretar versões do Zezé di Camargo e Luciano na Rede Globo foi no mínimo uma puta responsabilidade. Ainda mais porque uma das músicas que cantei era nada mais nada menos que “É o Amor”, a música mais importante da carreira da dupla e, gostando ou não, uma das mais tocadas da história. O Dollar Furado tem grandes músicos, o que facilitou bastante. Procurei deixar tudo com nossa cara dentro do possível. Gostei muito do resultado final e me senti honrado  pelo convite.


CDOROCK - Você parece ter transitado entre extremos, de Santo Anastácio no interior paulista a Nova York. Que marcas isso deixou em você? 

CAIO - Sempre corro atrás de alguma coisa a mais. Não poderia ser quem sou sem uma dessas cidades. E também acho que quanto mais eu rodo mais fácil eu componho. 


CDOROCK - E o que sua personalidade tem de caipira e de roqueiro?

CAIO - Vixe, vou perguntar pra minha gata.

CDOROCK - O country é um estilo machista?

CAIO - Não especificamente. Acho tão machista quanto tudo que se vê por aí. 

CDOROCK - Como seria pra você, com sua proposta country-roqueira cheia de testosterona, caso se tornasse símbolo sexual não só de mulheres, mas também de homens gays?

CAIO - Não sou sexista. Escrevo sobre a inquietude do homem moderno, atormentado. É isso que eu sou. Ser gay jamais deve ser uma condição de inclusão ou exclusão, sei que muitos ainda pensam de maneira preconceituosa, mas não passam de idiotas.

Foto: juarez, quem?
Agradecimentos: clube A Loca, e projeto Grind.

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