sábado, 23 de janeiro de 2016

Boy George

Primeiro o rock era negro, e transgredia. Depois ficou branco, mas, excessivamente sexual, transgredia. Vieram as drogas, a paz e o amor, e continuou a transgredir, como continuou em seguida com os espinhos metálicos nas jaquetas rasgadas e as notas simplificadas das guitarras. Até que maquiagens pesadas, sapatos plataforma, calças justas, laquês e o preto básico camuflaram o machismo, o sexismo, a homofobia e até o fundamentalismo. Restou ao pop os louros da transgressão.

Nesse intermédio que surgiu a Culture Club, banda inglesa liderada por Boy George, homem gay, afeminado, travestido. Oriundo do movimento New Romantic, que trazia o glam, a exuberância e androginia à cena, até como uma resposta ao punk, sua imagem era uma afronta, não porque nos fazia lidar com uma fantasia, uma brincadeira ou uma simples provocação, mas porque nos trazia uma verdade: Boy George era o que era, não se escondia. E deixava bem claro: “Eu quero que Culture Club represente todos os povos e minorias”.

Musicalmente, a banda abrangia muitos estilos, inclusive os mais inesperados para um homem como ele, como o reggae. Vinha na contramão da música eletrônica rasteira, tão presente em clubes noturnos, e do rock soturno dos guetos e do heavy metal dos rebeldes conservadores. É como se Boy George enxergasse além, mais do que esperaríamos compreender.

A banda surgiu em 1981, com o primeiro álbum, Kissing to be Clever, lançado já em 1982. Estouraram com o single Do You Really Want To Hurt Me e logo conseguiram uma carreira na famigerada América, sendo a primeira banda desde os Beatles a ter três canções no Top 10 daquele país. Do segundo álbum, Colour by Numbers, veio o grande sucesso, Karma Chameleon. Com o álbum, ganharam o primeiro Grammy e George fez o lendário discurso de agradecimento: “Obrigado, América. Vocês têm estilo, vocês têm bom gosto e sabem reconhecer uma boa drag queen quando veem uma”.

Como era de praxe à época, a decadência da banda começou com o vício de George em drogas, o que tornou sua carreira mais irregular, com muitos conflitos internos na banda, dando margem a uma carreira solo, iniciada com Sold (1987) e que já tem treze trabalhos. O mais recente, de 2013, This What I Do, foi o seu primeiro solo desde Sold a alcançar o Top 40 do Reino Unido, e chamado pelo The Guardian de “o melhor retorno do ano”.

Em tempos de um rock careta e covarde, extremamente branco, hétero e classe média, em tempos de um levante contra a discriminação aos "afeminados", é bom lembrar de figuras como Boy George, que oferece outros caminhos e novas perspectivas. O Caralho do Rock, com essa postagem, deixa claro que olhará com mais cuidado para outros estilos e identidades de gênero já que presencia uma fase em que “roqueiros” começam a ter medo de aparecer por aqui, por ser sermos gays e desviados demais. Que venha o novo.